ia a pé,
protegida por uma muralha ou por uma barricada de paus
aguçados. Os dothrakis disparam do dorso dos cavalos,
avançando ou em retirada, não importa, são tão mortíferos de
uma forma como de outra... e há tantos, senhora. Só o senhor
seu esposo conta com quarenta mil guerreiros montados no
seu khalasar.
- É realmente tanto assim?
- Seu irmão Rhaegar levou esse número de homens para o
Tridente - admitiu Sor Jorah -, mas os cavaleiros não eram
mais que um décimo. O resto eram arqueiros, cavaleiros livres
e soldados desmontados, armados de lanças e piques. Quando
Rhaegar caiu, muitos deixaram as armas e fugiram do campo
de batalha. Quanto tempo pensa que uma tal gentalha
aguentaria contra a carga de quarenta mil guerreiros,
uivando com sede de sangue? Quão bem os protegeriam seus
coletes de couro fervido e as cotas de malha quando as setas
caíssem como chuva?
- Não muito tempo - ela respondeu -, e mal.
Ele confirmou com a cabeça.
- Mas note, princesa, que, se os senhores dos Sete Reinos
tiverem a esperteza que os deuses concederam a um ganso,
nunca se chegará a este ponto. Os cavaleiros do mar de
plantas não apreciam as artes do cerco. Duvido que
conseguissem tomar até mesmo o mais fraco dos castelos dos
Sete Reinos. Mas se Robert Baratheon fosse suficientemente
tolo para lhes dar batalha...
- E é? - perguntou Dany. - Um tolo?
Sor Jorah ponderou por um momento.
- Robert deveria ter nascido dothraki - disse por fim. - Vosso
khal diria que só um covarde se esconde atrás de muralhas de
pedra em vez de enfrentar o inimigo de espada na mão. O
Usurpador concordaria. É um homem forte, bravo... e
suficientemente imprudente para defrontar uma horda
dothraki em campo aberto. Mas os homens em volta dele,
bem, os seus flautistas tocam outra melodia. O irmão Stannis,
Lorde Tywin Lannister, Eddard Stark... - cuspiu.
- O senhor odeia esse Lorde Stark - disse Dany.
- Roubou-me tudo o que amava por causa de uns quantos
caçadores furtivos piolhentos e de sua preciosa honra - disse
Sor Jorah em tom amargo. Ela compreendeu que a perda
ainda lhe doía, O cavaleiro mudou rapidamente de tema. - Ali
está - anunciou, apontando. - Vaes Dothrak. A cidade dos
senhores dos cavalos.
Khal Drogo e seus companheiros de sangue levaram-nos
através do grande bazar e do Mercado Ocidental, e pelas
largas ruas em frente. Dany os seguia de perto em sua prata,
observando a estranheza que a rodeava. Vaes Dothrak era ao
mesmo tempo a maior e a menor cidade que ú vira. Calculou
que devia ser dez vezes maior que Pentos, uma vastidão sem
muralhas nem limites, com largas ruas varridas pelo vento,
pavimentadas de capim e lama e atapetadas de flores
silvestres. Nas Cidades Livres do Oeste, as torres, as mansões,
os casebres, as pontes e as lojas amontoavam-se umas em
cima das outras, mas Vaes Dothrak espalhava-se
langorosamente, tostando ao calor do sol, antiga, arrogante e
vazia.
Até os edifícios eram muito estranhos aos seus olhos. Viu
pavilhões de pedra talhada, mansões de capim entrelaçado
tão grandes como castelos, vacilantes torres de madeira,
pirâmides de degraus revestidas de mármore, longos salões
abertos ao céu. Em lugar de muros, alguns locais estavam
rodeados por sebes espinhosas.
- Nenhum deles é parecido com outro - disse.
- Em parte, seu irmão disse a verdade - admitiu Sor Jorah. -
Os dothrakis não constroem. Há mil anos, quando queriam
fazer uma casa, escavavam um buraco na terra e cobriam-no
com um teto de capim entrelaçado. Esses edifícios foram
construídos por escravos trazidos das terras que saquearam, e
cada um foi erguido segundo o estilo do respectivo povo.
A maior parte das casas, até as maiores, parecia deserta.
- Onde estão as pessoas que vivem aqui? - Dany perguntou, O
bazar estava cheio de crianças correndo e homens gritando,
mas fora dele vira apenas alguns eunucos tratando de seus
assuntos.
- Só as feiticeiras do dosh khaleen vivem permanentemente
na cidade sagrada, elas e seus escravos e criados - respondeu
Sor Jorah -, mas Vaes Dothrak é suficientemente grande para
alojar todos os homens de todos os khalasares, caso todos os
khals decidam regressar ao mesmo tempo à Mãe. As feiticeiras
profetizaram que um dia isso aconteceria e, portanto, Vaes
Dothrak deve estar pronta para acolher todos os seus filhos.
Khal Drogo finalmente parou perto do Mercado Oriental,
onde as caravanas vindas de Yi Ti, Asshai e das Terras das
Sombras vinham fazer negócio com a Mãe das Montanhas
erguida sobre suas cabeças. Dany sorriu ao recordar a jovem
escrava de Magíster Illyrio e sua conversa sobre um palácio
com duzentos quartos e portas de prata maciça. O "palácio"
era um cavernoso salão de testas feito de madeira, cujas
paredes rudemente talhadas se elevavam a mais de dez
metros de altura, com um teto de seda cosida, uma vasta
tenda ondulada que podia ser montada para afastar as raras
chuvas, ou desmontada para acolher o céu sem fim. Em torno
do salão havia grandes pátios para cavalos, cheios de capim,
delimitados por sebes altas, covas para fo